domingo, 10 de janeiro de 2010

Manuel Alegre


Indo directamente ao assunto: gostei da entrevista de Manuel Alegre ao jornal Expresso.

Apesar de não me rever em termos linha ideológica e partidária que ele representa, admiro a sua frontalidade e independência face ao partido.

Transcrevo uma passagem deveras interessante...

"Expresso: Vivemos uma gravíssima crise económica, uma crise política...

Manuel Alegre: Mais do que isso, uma crise nacional. Lembra-me o fim da monarquia. Há quem diga que o país vai acabar, que mais valia sermos espanhóis. Há uma crise de confiança. E isso é grave. Somos a mais velha nação da Europa. Isto custou muito a fazer, foi sempre uma magnífica obra de vontade através dos séculos. Somos uma nação com uma história incomparável e isso deve ser transmitido às novas gerações, que se calhar não o aprendem porque na educação não se discute o essencial: os programas e o conteúdo do ensino.

Expresso: Acha que Portugal tem futuro?

Manuel Alegre: Se achasse que não tinha, fazia "qualquer coisa de louco e heróico", como diria o Manuel da Fonseca! Ou mandava tocar a "marcha Almadanim" ou fazia uma revolução. "Portugal é o futuro do passado", disse Pessoa. Claro que tem futuro! Vi Lula em Copenhaga a falar português e a citar o padre António Vieira: se calhar o Quinto Império é o império cultural e da língua. Essa é a força de Portugal!..."


P.S: A propósito de indendência face ao partido, é vergonhoso a cada vez mais regular imposição de disciplina de voto por parte dos partidos na Assembleia da República. A democracia, tal como a concebo, não é a pura lei da maioria. A democracia fundamenta-se na representação, em indivíduos autónomos dotados de razão (Kant) que podem discutir, consensualizar e adoptar aquilo que é melhor para todos e não para uma facção. Ora, estamos a ir pelo caminho oposto...


4 Comentários:

Às 13 de janeiro de 2010 às 14:45 , Blogger Ana Gabriel disse...

Ricardo

Vim aqui ter pelos links no Minoria Ruidosa e gostei do primeiro post que li, mas chegada aqui... a Manuel Alegre...

Votei nele para Presidente em 2006. Aliás, foi um fenómeno muito interessante aquela campanha, inédito no país. Conseguir aquela votação tão significativa quase sem meios?, sem financiamentos?, foi quase tudo pela internet...

O que me levou a votar nele? Aquela "Trova do Vento Que Passa", uma nostalgia pela Coimbra dos anos 70 (estudei lá), antes da "revolution", esse equívoco que nos trouxe a esta decadência.
Nostalgia pela "primavera marcelista" e pela esperança de uma abertura gradual para uma democracia, por essa respiração, esse entusiasmo nas vozes dos trovadores das serenatas...

Não há nada mais perverso e perigoso do que um "falso trovador", Ricardo. É no que se transformou (ou sempre disfarçou) Manuel Alegre.
Quando me apercebi das suas hesitações em relação ao actual "socialismo moderno", umas vezes refila, outras vezes apoia, verifiquei que na verdade não quer saber do povo da Trova. É apenas uma figura de estilo!

Agora fica-lhe bem falar da decadência nacional. Para a qual contribuiu, e isso é preciso lembrar.

Cumprimentos
Ana (d' as_coisas_essenciais no Sapo)

 
Às 14 de janeiro de 2010 às 10:46 , Blogger Ricardo Nunes disse...

Antes de tudo, bem-vinda ao nosso blog.

Compreendo perfeitamente a tua (posso tratar-te assim) opinião e até comungo da maioria dos pensamentos.

Eu, talvez por ser natural de Coimbra (embora não tenha tido a oportunidade de vivenciar aqueles tempos de revolução social e estudantil) sei aquela nostalgia Coimbrã típica que Manuel Alegre carrega com ele. E compreendo igualmente que por vezes o seu lirimos e idealismo seja, ele próprio, inibidor de assumir uma linha política coerente, sem hesitações entre a esquerda às 2ªs, 4ª e 6ª e a extrema esquerda nos restantes dias da semana.

Não votei Manuel Alegre nas Presidenciais nem faço intenções de o fazer. Apenas me limitei a transcrever umas passagens cuja mensagem me parece de extrema acuidade e (por que não rdizê-lo) beleza!

Cumprimentos.

Ricardo

 
Às 14 de janeiro de 2010 às 17:00 , Blogger Ana Gabriel disse...

Sim, Ricardo, mas se eu já caí nessa beleza da Trova, posso tentar alertar os idealistas como tu e outros, das novas gerações...
Não digo a ouvir-me de forma acrítica, simplesmente a dar-me o benefício da dúvida.

Estudei em Coimbra desde o Ciclo Preparatório precisamente na "primavera marcelista", no colégio Santa Isabel como aluna interna. Eram tempos virados para o futuro, entendes? Havia esperança, frescura, simplicidade, era tudo mais genuíno. Pelo menos, era assim que eu via Coimbra e os trovadores das serenatas.
Apanhei o 25 de Abril já no Liceu D. Maria e depois o "verão quente" no Liceu José Falcão. Para esquecer.
Ainda apanhei o ano dos Cívicos, uma interrupção de 1 ano em serviço cívico num jardim-infantil.
A faculdade de Psicologia, iniciada em Coimbra no ano em que entrei, 1976, funcionava nas Letras, aquele edifício escuro. Terminei o curso em 81.

Obrigada pelo teu acolhimento neste blogue onde vim parar pelo "Minoria Ruidosa", outra descoberta surpreendente.

Cumprimentos
Ana

 
Às 16 de janeiro de 2010 às 19:43 , Blogger Ricardo Nunes disse...

De nada Ana! Nós (penso que poderei falar em nome de todos) é que agradecemos a tua contribuição pertinente e historicamente rica.

Eu sou de uma geração bastante posterior (nascido a 1982) e, portanto, não serei a pessoa mais correcta para analisar os anos conturbados do início da década de 70 e período subsequente.

[Apenas um aparte para referir que saudades tenho eu do Liceu José Falcão...]

O testemunho que posso dar é o de uma geração entalada, no sentido em que cada vez mais palavras como "estabilidade" e "certeza" deixam de fazer parte do vocabulário. O que pode não ser necessariamente mau, o problema é que não há forma de antever que as gerações futuras tenham um futuro mais risonho...

Cumprimentos,

Ricardo

 

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