domingo, 15 de novembro de 2009

The Wire



Terminados os 5 episódios da pouco conhecida (em Portugal pelo menos), mas sobejamente aclamada série "The Wire", agradeço a execução da mesma aos argumentistas, produtores, actores e todos os outros participantes, que tornaram a série um case study de investigação ao crime organizado e tiveram no seu propósito uma noção de serviço público em todo o processo de execução da série (nada como ler a carta aos fans escrita pelo produtor David Simon).

Considero The Wire um excelente walkthrough da investigação criminal americana, ainda mais quando toda a acção se situa numa cidade média americana, Baltimore, que se caracteriza por um declínio acentuado da sua herança de pólo industrial e portuário na altura em que a cidade era fluxo de imigração europeia (irlandeses, italianos, gregos, polacos). A acção desenrola-se tendo como epicentro o tráfico de droga nos bairros problemáticos de Baltimore, onde a população é praticamente só afro-americana, e a investigação do crime organizado por parte dos polícias locais a todas as redes criminosas que actuam nesses bairros, e os mecanismos de investigação utilizados. À volta do principal tema, toda a envolvente política local (nomeadamente, através das campanhas para a eleição do mayor da cidade, toda a extensão da actuação dos lobbies e dos fundraisers e a sua capacidade de influenciar decisões políticas, a influência dos políticos locais na investigação criminal, a influência de questões raciais na conquista de eleições) é analisada em detalhe. Ao mesmo tempo, a investigação criminal é analisada em toda a sua extensão (tendo como base o departamento de homicídios da polícia local) desde a recolha de provas, a selecção dos agentes para investigar o crime, os métodos de investigação (seja através de escutas, interrogatórios, vigias no local), o papel dos advogados na negociação e na defesa acérrima dos seus clientes, o envolvimento dos procuradores públicos na formulação de provas e na constituição do caso, até à decisão do julgamento por parte dos tribunais.

A série The Wire tem um toque especial quando é declaradíssimo o objectivo dos seus criadores de tornar a série o mais realista possível, de analisar a América por dentro, de estudar a interacção entre as várias etnias e o papel delas na sociedade. O 2º episódio é sintomático deste desejo, ao desviar as atenções da tendência afro-americana da série e desviar as atenções para toda a envolvência à volta dos trabalhadores do porto de Baltimore e os seus sindicatos, da igreja ortodoxa, e dos crimes praticados nas alfândegas (nomeadamente no processo de controlo de mercadorias e furto das mesmas). Ao refocar a série na actividade portuária da cidade, a série analisa por dentro as comunidades gregas e polacas, e aí atinge uma dimensão "americana", cumprindo o objectivo declarado pelos seus criadores. De recriar a América e os seus problemas tendo como pano de fundo Baltimore.

Como o nome indica, o papel das escutas na série é determinante no sucesso (e insucesso) da investigação criminal. Múltiplas vertentes e implicações das escutas são tidas em conta: o desafio da legalidade, os limites morais, as técnicas improvisadas, a apresentação das provas em tribunal, etc. Curiosamente, as escutas atingiram claramente os traficantes de droga e as suas redes, mas não foram suficientes para julgar os políticos pelos seus crimes. É interessante e não é de todo ousado identificar uma analogia entre o papel das escutas em The Wire e o que se passa em Portugal no caso Face Oculta e Freeport. Seria interessante perceber até que ponto é possível reunir provas em Portugal e levá-las a tribunal, tal é a dificuldade em formular uma acusação que atinja o status quo em Portugal e perceber onde termina o raio de acção dos orgãos executivos e começa o dos orgãos judiciais. É tudo nebuloso e pouco claro, infelizmente.

Para saber mais de The Wire, recomendo as seguintes leituras na blogosfera nacional:

- Pastoral Portuguesa
-
Minoria Ruidosa
-
Hole Horror

- E o artigo de Rogério Casanova na revista LER intitulado "A melhor série de sempre".


2 Comentários:

Às 16 de novembro de 2009 às 16:09 , Blogger Margarida disse...

Tudo novo. Nem li o texto, imprimi para ler depois, no Metro, em casa, por aí. Textos longos ficam difíceis de seguir no ecrã (eu é mais papel...).
Uma nota só: ainda haverá algo que nos surpreenda?
I wonder...
:)
Obrigada pela visita & don't be a stranger, OK?
;)

 
Às 16 de novembro de 2009 às 23:41 , Blogger Gonçalo Pereira disse...

Também não me gosto de fazer de convidado :)

 

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