segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Mundo actual (I) - Globalização do sistema financeiro

Estamos perante uma crise económica despoletada pela derrocada de parte do sistema financeiro mundial. Num contexto de elevada prosperidade da real economy mundial, que registou o maior crescimento de sempre em 2007, uma bolha no mercado imobiliário nos EUA, que se pensava concentrada, atinge subitamente todo o sistema financeiro e a indústria.

Os motivos da crise não são obscuros como se pensa. Contudo, na minha opinião, a crença de que por trás de toda esta situação está a ausência de poupança nas economias ocidentais é falsa. O argumento principal é o de que nos últimos 15 anos as economias ocidentais têm sido impulsionadas por uma política de baixos juros, acesso fácil ao crédito e incentivos ao consumo privado. Este argumento é falacioso. O objectivo central de um governo deve ser o crescimento económico equilibrado, apoiado por políticas que favoreçam o emprego e mantenham a inflação baixa. Se foi possível baixar os juros nos últimos 15 anos, foi graças ao sucesso obtido no crescimento económico e na contenção da inflação. A concessão de crédito simplesmente não depende directamente dos governos, que apenas pode melhorar os mecanismos de regulação.

Depois, podemos verificar que países com elevados níveis de poupança são directamente afectados pelas crises financeiras, como a Suiça ou o Japão, sem mecanismos extraordinários de salvaguarda que os coloquem a salvo da crise internacional. Para comprovar este argumento, veja-se a crise asiática de 1998, com grande quantidade de defaults de países com elevados níveis de poupança.

Na minha opinião, esta crise é explicada pela falta de regulação e pela elevadíssima integração do sistema financeiro. A falta de visão orientação do SEC (US Securities and Exchange Commission) nos anos 90 permitiu aos bancos de investimento americanos separarem-se da regulação imposta aos bancos comerciais. Permitiu ainda a abolição do limite do rácio de alavancagem (rácio de capital próprio para dívida) de 1 para 12. Estas medidas incentivaram os gestores destes bancos a assumir de ano para ano maior risco nos seus investimentos, segundo uma política de bónus que premeia aumentos de lucros tendo sempre como base o próprio ano. A exigência de maiores lucros implica maior risco nos investimentos. E como eram financiados os mesmos? Através das receitas obtidas com as emissões sucessivas de obrigações sobre a própria dívida. Ora, não é de estranhar que, no final de 2007, o rácio de alavancagem dos bancos de investimento americanos rondasse os 1 para 30. O castelo de cartas facilmente se desmoronou, no momento em que se percebeu que uma parte considerável dos activos dos bancos de investimento tinha um valor de mercado muito abaixo do contabilístico. O mesmo se passou com os bancos comerciais e as hipotecárias. A ausência da mais elementar regulação, controlo e garantia, na atribuição de empréstimos e hipotecas a quem não podia manifestamente pagar (ou assumiu que a valorização constante das casas pagaria por si), levou a uma progressiva avolumação de dívida e, consequentemente, à descoberta de activos tóxicos.

A elevada integração do sistema financeiro levou a uma globalização da crise. Dos activos tóxicos pertencentes aos bancos comercais americanos e às hipotecárias, a situação alastrou-se para os bancos de investimento americanos que tinham investido nesses activos, suportados por elevada alavancagem; de seguida a onda alastrou-se para os bancos europeus e asiáticos que tinham investido em obrigações e fundos de investimento dos bancos americanos; quando os bancos começaram a apresentar elevados prejuízos e enquanto os instrumentos financeiros perdiam sucessivamente valor, os bancos começaram a restringir o crédito e a não emprestar uns aos outros; por fim, a real economy era afectada pela ausência de crédito e sem crédito não há investimento e criação de emprego.

Deste modo, toda a regulação deve ser repensada. Senão continuaremos a ter negociatas, conivências, fraudes, irresponsabilidade, falta de informação e ausência de princípios, no cerne do sistema financeiro mundial. Veja-se o caso Enron, pois parece que nada se aprendeu desde aí.